segunda-feira, abril 23, 2018

A controvérsia das podas radicais também na Bélgica

De há uns anos a esta parte, tornou-se frequente ver árvores na via pública que foram alvo de uma poda dita "radical".  Trata-se de uma intervenção que bem se poderia chamar poda à Luís XVI, uma vez que as árvores são pura e simplesmente decapitadas e as consequências não são meramente estéticas.

Este tipo de prática coloca em risco a própria sobrevivência das árvores, que são obrigadas a recorrer a todas as suas reservas energéticas e nutrientes que puderem obter para conseguir recuperar o seu vigor. Se a árvore não tiver acesso a essas fontes de energia fatalmente morre. Temos muitos exemplos disso no Fundão e ao redor e a prática tem gerado alguma contestação e não é só em Portugal.

Árvore junto à N238 em 2004


A mesma árvore alvo de poda radical em 2009. A árvore acabou por morrer, juntamente com outra de porte idêntico mesmo ao lado.


Há dias, ao passear por alguns parques da cidade belga de Liège, deparei-me com algumas ávores mortas que, ainda assim, tinham sido deixadas de pé no seu local de sempre. A razão para tal é o facto de, agora que estavam mortas, serem a base para todo um novo eco-sistema saprófita (organismos que se alimentam de madeira morta).


Uma delas chamou-me particularmente a atenção. Tratava-se de uma árvore cujo perímetro tinha sido delimitado por uma cerca e junto à qual se encontrava um painel informativo dizia o seguinte:




"Árvore morta de interesse biológico

Esta árvore morta ainda de pé serve de substrato para o desenvolvimento do complexo saprófita (musgos, fungos e insectos que decompõem a madeira para se alimentarem dela).

A árvore foi sumariamente podada para indicar que não se tratou de um esquecimento dos serviços técnicos comunais NEM DE UMA PODA RADICAL"

Sobressai aqui a preocupação em fazer saber que a árvore não morreu em resultado de uma poda radical. 

quinta-feira, abril 12, 2018

Os Moinhos da Serra da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Abril de 2018


Sr Raposo, o último moleiro da Gardunha ainda em actividade


Na sua longa história, as comunidades das franjas da Gardunha souberam aproveitar da melhor forma os recursos naturais desta serra para a sua economia, quase sempre, de subsistência. Para lá da sua riqueza florestal, o recurso mais valioso sempre foi a água, um bem de primeira necessidade, aproveitado igualmente para irrigar terrenos agrícolas, conquistados ao flanco da montanha à força de braços nas zonas de maior pendente, e também como fonte de energia motriz para variados equipamentos moageiros que, com o passar dos séculos, foram surgindo ao longo das linhas de água.

Na Gardunha, a distribuição destes equipamento varia em função do caudal dos cursos de água. Nas zonas periféricas mais baixas, onde os ribeiros possuem maior caudal, encontramos os lagares e as azenhas, ao passo que nas zonas mais interiores e elevadas da Serra encontramos equipamentos mais pequenos mas não menos interessantes: os moinhos de rodízio. Na Gardunha, a cota máxima em que se sabe ter existido um destes moinhos é de cerca de 900m. Embora muitas vezes sejam confundidos no nome, os moinhos de rodízio distinguem-se das azenhas pela sua menor dimensão e pela posição das rodas no interior da construção.

Sendo património familiar passado de geração em geração, não se herdava a posse física do moinho mas antes o direito e o tempo de utilização, dividindo-se o número de dias do mês pelo número de herdeiros. Saliente-se no entanto que esta regra não se aplicava apenas aos moinhos mas também a vários outros recursos e equipamentos da comunidade.

Os moinhos de rodízio terão sido introduzidos na Península Ibérica pelos romanos mas a tradição popular conta-nos uma versão distinta e sobrenatural da sua origem. A lenda conta que foram inventados pelo Diabo que, cheio de orgulho, chamou Deus para lhe mostrar aquilo que tinha acabado de criar. Este último felicitou o Diabo mas, para surpresa do inventor, chamou a atenção para o facto de faltar algo muito importante naquela obra, desenhando de seguida uma cruz sobre a mó “para moer grão e bicho não”. A marca deste acto de apropriação de propriedade industrial é ainda hoje bem visível nas mós de todos os moinhos mas a sua função é igualmente utilitária. De facto, a cruz serve de referência da posição de encaixe da mó movente na estrutura do rodízio aquando da sua de manutenção.

Este cunho religioso dos moinhos enquadra-se na ampla ritualidade inerente à produção do pão que vai desde a marcação de cruzes na massa, para garantir que a fermentação corre bem, até às cruzes insculturadas nas mós e às vezes até junto às próprias portas dos moinhos, para manter os males no exterior. Mesmo o produto final, o pão, é alvo de um respeito muito particular pois quando inadvertidamente se deixava cair, era rapidamente apanhado e beijado numa atitude de contrição.

Em relação à sua estrutura, os moinhos de rodízio estão geralmente divididos em dois compartimentos sobrepostos: o espaço da moagem na parte superior e o compartimento inferior popularmente chamado de “inferno”, onde a água faz mover o mecanismo do rodízio. Este consiste numa roda metálica que faz girar um veio vertical sobre o qual, no compartimento superior, encaixa a mó movente. O grau de moagem pode ser ajustado mediante uma alavanca, o aliviadouro, que afasta ou aproxima a as mós. Todo o sistema do rodízio apoia-se e gira sobre um pequeno seixo de quartzite, extremamente polido pela fricção e, por isso, com um mínimo de atrito.

Apesar de actualmente quase todos os equipamentos moageiros estarem abandonados e a maior parte em ruínas, há ainda alguns exemplares que se mantêm em utilização e outros, poucos, foram alvos de restauro para efeitos museológicos. No entanto, sendo o Concelho do Fundão tão rico em equipamentos moageiros de diferentes tipologias e que tiveram tamanha importância na economia das suas gentes, estranha-se que não exista uma oferta museológica que lhes dê a devida atenção. Este será um assunto a discutir num próximo artigo.

segunda-feira, abril 09, 2018

A trágica história do forte de Loncin


A entrada do forte de Loncin. A destruição das casamatas da entrada é apenas um prenúncio do que se encontra no interior.



Monumento aos mortos que ficaram sepultados no interior do forte.



A tranquilidade da paisagem que hoje rodeia as ruínas do forte de Loncin contrasta com a história pesada e trágica do local. Este forte, situado a cerca de 7km do centro de Liège, foi um dos 12 fortes  construídos em 1888 para formar a posição fortificada de Liège, formando um círculo de protecção ao redor da cidade (recordar aqui). 

Esta posição fortificada fazia parte da estratégia nacional belga, posta em prática após o conflito Franco-Prussiano de 1870, para assegurar a inviolabilidade do seu estatuto de neutralidade em caso de novo conflito entre os seus vizinhos.  Assim, a posição fortificada de Antuérpia fechava a entrada a tropas vindas de Inglaterra, a cintura de Namur trancava a fronteira com a França enquanto Liège dissuadia qualquer avanço vindo da Alemanha. 

Com o início da I Guerra Mundial a 28 de Julho de 1914, a Bélgica começou a preparar a sua defesa. À volta dos fortes e num raio de 600m, as sebes e as árvores foram cortadas e as casas foram destruídas, tudo com o objectivo de criar uma zona de total visibilidade que também não oferecesse abrigo ao inimigo. Linhas telefónicas foram entretanto colocadas entre os fortes e as torres de igreja mais próximas que iriam servir de postos de observação.  

A 2 de Agosto, alegando que a França se preparava para atravessar o território belga para a atacar, a Alemanha enviou um ultimato à Bélgica exigindo a autorização de passagem dos exércitos alemães para atacar a França. Perante a recusa do rei Alberto 1º, a Alemanha declarou então guerra à Bélgica e a invasão teve início a 4 de Agosto. 

A inesperada resistência belga, protagonizada pelos fortes, obrigou os alemães a triplicar as tropas envolvidas e a trazer a sua artilharia mais pesada a partir de 10 de Agosto. Foi aqui que as coisas se precipitaram. Um a um, os fortes belgas foram caindo. Construídos em betão simples, não armado, estavam preparados para resistir a obuses de até 210mm, os maiores conhecidos em 1888, mas não aos de 420mm que os novos canhões alemães, os famosos "Grande Bertha", conseguiam disparar. 

O obus de 420mm, em cima do seu cartucho. O projéctil de 800kg era disparado numa trajectória pronunciada que podia levá-lo a abater-se sobre o seu alvo após uma queda livre de 2km.

Por outro lado, havia erros de concepção nos fortes. Em caso de bombardeamento cerrado, as latrinas, cozinha, padaria e talho ficavam inacessíveis já que por questão de orçamento não tinha sido construído um acesso coberto as estas instalações situadas na contra-escarpa. Isto, juntamente com a falta de sistemas de ventilação (excepto em Loncin), fez com que o agravamento das condições sanitárias dentro dos fortes precipitasse a sua rendição.


O ataque ao forte de Loncin

Cúpula de artilharia de canhão duplo de 120mm

O forte de Loncin foi construído em forma de triângulo isósceles, com a base com 300m de comprimento. O corpo central do conjunto, a zona das torres de artilharia, estava rodeado por um fosso de 8 metros de largo e 4 de altura e na contra-escarpa do forte, em cada ângulo, possuía casamatas equipadas com canhões de 57mm para defesa de proximidade contra infantaria, tivesse o inimigo conseguido invadir o fosso. Para esse efeito, havia munições anti-infantaria, com projécteis cujo invólucro se desfazia após o disparo, libertando inúmeras esferas de chumbo que se espalhavam e varriam a infantaria inimiga. 


Maquete do forte de Loncin. É visível a forma triangular do forte e o seu maciço central em betão, com as cúpulas de artilharia. As de canhões de 57mm para defesa em proximidade e as de maior calibre para atingir objectivos a um máximo de 8,5km. Entre a entrada e a cúpula central de 150mm situava-se a posição do farol, capaz de iluminar a paisagem numa distância de até 3km. Imagem obtida aqui


Ângulo do fosso. Ao centro situa-se o corpo principal do forte, contendo casernas, paióis e posições de tiro. À direita, na contra-escarpa de entrada, situavam-se as instalações sanitárias, padaria, etc. 

Situado numa posição estratégica, controlando a estrada e o caminho-de-ferro que levavam a Bruxelas, o forte de Loncin era também um dos 6 maiores fortes de Liège e o mais avançado. Para além de ser comandado por um oficial por quem os soldados tinham uma admiração e obediência cegas, foi para aqui que o comando da posição fortificada de Liège se retirou nos primeiros dias da batalha. Loncin começou a ser atacado a partir do dia 7 de Agosto mas antes, o comandante do forte reuniu todos os seus 530 homens no fosso da entrada e fê-los jurar que se bateriam até ao último homem

O forte foi resistindo mas, com a queda dos outros fortes, começou a concentrar sobre si o grosso dos tiros da artilharia alemã. Tendo perdido todos os seus postos de observação e sem comunicação com o resto das forças belgas, o forte começou a sofrer aquele que viria a ser o bombardeamento final às 16h do dia 14 de Agosto e que despejaria sobre Loncin cerca de 15.000 obuses

Aos poucos, os soldados tiveram de se refugiar cada vez mais no interior do forte. Para piorar a situação, o gerador eléctrico avariou devido à obstrução da chaminé e, para além da falta de iluminação, a partir daí assegurada por modestos candeeiros de petróleo que se apagavam com as trepidações das explosões, o ar começou a tornar-se irrespirável. Em consequência disso, numa das casamatas de protecção do fosso, todos os soldados que aí operavam um canhão de 57mm morreram asfixiados após receberem ordens para não arredarem pé, perante a iminência do avanço da infantaria alemã. 


O interior da galeria principal do forte, onde os soldados se refugiaram à espera do ataque final alemão. Ao fundo, vê-se o início da secção que colapsou às 17h20 do dia 15 de Agosto.

Foi finalmente às 17h20, hora que ficou terrivelmente marcada na memória local, que um obus de 420mm, disparado a cerca de 8km de distância, trespassou a couraça já danificada do forte e se enfiou num dos paióis do forte, fazendo explodir as 12 toneladas de explosivos aí armazenadas. A explosão arrasou o forte, matando instantaneamente 350 homens e fazendo até saltar as cúpulas de artilharia do seu sítio. Os poucos soldados que conseguiram sair, concentraram-se no fosso, junto à casamata da cabeça, onde montaram uma última resistência até serem abatidos pela infantaria alemã que finalmente tinha avançado. 

O resultado da explosão do paiol. Neste local uma placa assinala o local de sepultamento de 250 soldados nunca recuperados.


O interior da casamata de protecção do fosso de entrada e o local onde o sub-oficial Albrecht e os seus homens morreram asfixiados pelos gases das explosões. A abertura inferior era aquela onde se encontrava o canhão de 57mm. A abertura superior destinava-se a permitir a entrada de ar mas não se previu que o ar exterior pudesse estar tão viciado. As fendas são o resultado da explosão do paiol.

Uma das cúpulas de artilharia de 210mm, a de maior calibre do forte, saltou do seu lugar devido ao sopro da explosão nas galerias do forte e ficou virada ao contrário. O que se vê na imagem é na verdade a estrutura interna da cúpula e a abertura por onde os obuses era carregados no canhão.

Os feridos que foram capturados e tratados pelos alemães, acabaram por receber destes um tratamento de profundo respeito, em reconhecimento pela forma valiosa como se tinham batido. O comandante das forças alemãs, por exemplo, fez questão de ir visitar o comandante do forte de Loncin ao hospital onde este recuperava dos ferimentos para o saudar.


O que resta

Actualmente o forte é gerido por uma associação sem fins lucrativos que aí organiza visitas guiadas. É esta associação que também gere o museu e adaptou as galerias não danificadas do forte para serem visitáveis. Tive ontem o privilégio de ser conduzido pelo Pierre, alguém que, conforme me confidenciou, começou por ser apenas um visitante do forte mas se sentiu de tal maneira ligado ao local que acabou por se tornar guia voluntário. Certo é que ao longo de mais de 2h30 me conseguiu manter interessado e até fascinado pelos relatos de todos os episódios que facilmente consegue situar no espaço do forte. 

O meu esmerado guia, diante da entrada do forte de Loncin que conserva ainda marcas bem visíveis do bombardeamento alemão. Atrás, na galeria de acesso, a protecção era reforçada por meio de uma ponte amovível que deslizava lateralmente, deixando aberto um fosso de 4m de profundidade.


A necrópole de Loncin, onde dezenas de soldados estão sepultados. Muitos deles tinham sido honrosamente enterrados pelos alemães num cemitério fora do forte, no preciso local onde hoje se situa o estacionamento dos visitantes.

O forte foi entretanto elevado a Necrópole Nacional e a casamata de cabeça do forte foi transformada em cripta, tendo aí sido inumados os restos mortais dos soldados entretanto encontrados, algo que ainda está longe de ter terminado uma vez que que, ainda em 2007, uma operação de desminagem levada a cabo pelo Exército permitiu retirar dos escombros não só 3500 obuses mas também os restos de 25 soldados, dos quais 4 foram identificados. Todos foram transferidos para a cripta. Muitos capítulos da história deste forte ainda estão em aberto.  

quarta-feira, março 28, 2018

O museu subterrâneo de Liège

Praça de São Lamberto, o coração de Liège. Hoje coexistem aqui o impressionante palácio dos Príncipes-Bispos, uma estação de autocarros e, do lado oposto da praça, um centro comercial. No centro, várias colunas metálicas evocam a desaparecida catedral de São Lamberto e sob a praça esconde-se o Archeoforum.



Muitos daqueles que hoje atravessam a Praça de Saint Lambert, situada no centro de Liège e dominada pelo imponente palácio dos Príncipes-Bispos, estão longe de adivinhar que sob o pavimento deste lugar se esconde praticamente toda a história da cidade

Para lá da entrada algo discreta e descendo uma série de degraus, entramos no Archeoforum, um museu subterrâneo que nos conta de maneira singular a história de Liège, desde a Pré-História, quando o espaço da actual cidade era uma larga planície pantanosa, onde o hoje desaparecido rio Legia se encontrava com os múltiplos braços do rio Mosa. Antes de falarmos no Archeoforum convém no entanto conhecer um pouco da história da cidade.


A entrada do Archeoforum


Ao lado da entrada do Archeoforum, encontra-se o memorial das vítimas do atentado no Mercado de Natal de 2011 (ver aqui)



A turbulenta história de Liège



Sabe-se pelos vestígios encontrados no local que houve presença humana desde o Paleolítico. Certamente, grupos de humanos terão aqui vindo para caçar os animais que faziam parte da vasta biodiversidade local.

É no entanto da época romana que se conhecem os vestígios de uma presença humana permanente, embora modesta, na forma de grande edifício rectangular com termas, talvez parte de uma villa. Em torno desta fixaram-se gradualmente mais habitantes, gerando um pequeno aglomerado até que, por volta do ano 700, se deu um evento que iria para sempre marcar o destino de Liège: o assassinato de São Lamberto, bispo de Maastricht.

Vendo que os fiéis vinham em grande número prestar homenagem e rezar no local onde Lamberto fora assassinado, o seu sucessor ordenou a construção de uma igreja no local, para aí serem colocados os restos mortais de Lamberto. Numa prova de que o negócio da fé é um negócio bem rentável, as sistemáticas peregrinações a este local vieram contribuir para que o pequeno núcleo de casas fosse gradualmente crescendo, até se transformar numa grande cidade.

Apesar de ter sido saqueada duas vezes pelos vikings e, como se não bastasse, ainda tivesse sofrido um raide húngaro, a cidade prosperou e tornou-se sede de bispado e um importante centro religioso e cultural, tanto que chegou a ser apelidada de Atenas do Norte. No século X, Liège torna-se capital de um principado independente, governado pelos bispos, mantendo no entanto a sua ligação ao Sacro Império Romano Germânico. A igreja de São Lamberto, agora com o palácio dos príncipes-bispos como vizinho, vai evoluir para uma grande catedral gótica no século XII.

A história do principado não foi sempre pacífica. Um bom exemplo disso foi o que sucedeu no século XV quando, num conflito criado pela sucessão do príncipe-bispo, a população da cidade escorraçou o bispo que tinha sido colocado no trono pelos pouco simpáticos vizinhos Borgonheses. O Duque de Borgonha, Carlos o Temerário, não ficou muito agradado e, por conseguinte, atacou e arrasou a cidade, deixando apenas as igrejas de pé. No entanto, em jeito de compensação, mandou fazer um relicário com a sua imagem, segurando uma cápsula onde foi guardado um osso da mão de São Lamberto. A cidade sobreviveu no entanto a esta tragédia e alguns anos depois voltou a recuperar o seu fulgor.

O principado chegaria ao fim com a Revolução Francesa, com eco em Liège onde a população abraçou de forma entusiástica os ideais revolucionários. No decorrer da chamada Revolução de Liège, a população atacou o palácio dos príncipes-bispos e arrasou a catedral. Liège, com o seu território, foi integrada no novo departamento francês do Ourthe. Após o período napoleónico, Liège passou a fazer parte da Holanda até que, pouco tempo depois, se tornou parte da Bélgica independente.


O Archeoforum, da Pré-História ao século XX


São os vestígios desta longa história que se encontram no Archeoforum que, para além do museu, que contém um espaço para exposições temporárias e sala de eventos, é também um estaleiro de pesquisas arqueológicas ainda em curso.

As primeiras descobertas foram feitas no início do século XX, durante a abertura de valas para trabalhos de saneamento. Os vestígios foram preservados e, desde então, as investigações ainda não terminaram.



Alguns objectos avulsos junto a uma fotografia das primeiras escavações arqueológicas na Praça. O aspecto de estaleiro do museu salta logo à vista.



Galeria com ilustrações que mostram o desenvolvimento de Liège ao longo do tempo



As estruturas postas a descoberto, os muros do edifício romano, o local onde Lamberto terá sido assassinado e a imponente catedral gótica arrasada em 1789, podem aqui ser admiradas. A baixa altura do tecto, que obriga os visitantes a ter cuidado em algumas passagens, foi aproveitada para aí instalar luzes coloridas que ajudam a distinguir os diferentes muros. Por exemplo, os muros romanos são assinalados a vermelho, enquanto que a catedral gótica está identificada a azul.



As luzes vermelhas seguem e assinalam o alinhamento dos muros romanos. As luzes verdes marcam a localização das construções da catedral românica dos séculos X/XI



Ao longo do percurso, devidamente explicado pelo livro-guia ou iPad entregues na recepção, encontram-se vitrinas com alguns do objectos exumados nesse local.




De forma a transmitir a noção de que a História é algo que não se resume ao estudo do passado, os vestígios expostos vão desde o Paleolítico até ao século XX. Tem-se assim a clara noção de que a musealização da História não se deve restringir de forma redutora a cronologias recuadas mas, pelo contrário, deve pôr em evidência a continuidade temporal que liga aquilo que é hoje a nossa realidade com o passado mais remoto, estabelecendo de forma clara uma ligação identitária.

O preço de entrada é de apenas 7€ e digo apenas porque, para além da visita ao Archeoforum, com um pequeno livro-guia de oferta (não o iPad, infelizmente), o bilhete ainda permite aos visitantes visitar o tesouro da catedral de São Paulo, a igreja que substituiu a catedral de São Lamberto como sede de bispado de Liège. Vale bem a pena.



São Lamberto, o santo guardado em pedaços


Perto daqui, na Catedral actual, a Igreja de São Paulo, cuja torre sineira foi construída no século XIX com materiais da torre destruída da catedral primitiva, encontram-se os restos mortais de São Lamberto dispersos em vários recipientes. Desde a arca que "contém a maior parte" do santo, segundo um guia local, até ao famoso relicário de Carlos o Temerário, que contém uma falange, e o impressionante busto-relicário que contém parte do crânio do santo.

Não é que Lamberto tenha tido uma morte tão violenta que tenha ficado em pedaços. Foi violenta, na medida em que faleceu vítima de um golpe de lança na cabeça desferido a partir do tecto mas, com o correr dos séculos, os seus restos mortais foram sendo distribuídos por relicários.

Em relação ao motivo que levou ao seu assassinato, a tradição diz que São Lamberto morreu por ter recusado reconhecer a relação adúltera do prefeito do palácio, algo equivalente entre um primeiro-ministro e um vice-chefe de estado, do reino franco da Austrásia. Na verdade, morreu porque uma família rival decidiu atentar contra a sua. Sendo Lamberto uma figura importante, tornou-se um alvo privilegiado.


Arca tumular com "maior parte" dos restos mortais de São Lamberto



Relicário de Carlos o Temerário. O duque de Borgonha é representado ajoelhado e segurando a cápsula contendo a falange de São Lamberto, sendo apadrinhado por São Jorge (a figura em pé).



O Busto-Relicário de São Lamberto, feito por um artífice de Aachen antes de 1512. Contém um pedaço do crânio do santo.



Vale a pena visitar:

segunda-feira, março 12, 2018

O maior e mais antigo castanheiro do Mundo

No artigo anterior, falei aqui sobre as tradicionais secadeiras da Serra da Gardunha, que todos os anos secavam toneladas de castanhas, recolhidas pelas gentes da Gardunha, ansiando por guardar um quinto ou um sexto do que recolhiam. Em termos de números, para se ter uma ideia mais precisa, faltou dizer que, por exemplo, a secadeira do Tormentoso processava por ano cerca de 1.000 arrobas de castanhas, o equivalente a 15.000 kg, enquanto que a secadeira nova do Carcavão processava 2 moios(*) de cada vez, algo como 1800kg!

Pode parecer excessivo à luz do povoamento de castanheiros na Gardunha que hoje vemos mas houve alturas em que nesta serra se encontravam exemplares colossais, como o castanheiro grande do Alcambar ou o Castanheiro do Moio. A revista Brotéria, publicação fundada no antigo Colégio de São Fiel, deu a conhecer muitos desses muitos desses exemplares. José Germano da Cunha fala no séc XIX de um castanheiro com 18m de diâmetro do tronco, 48 na copa, dentro do qual caberiam 36 homens em pé.

Ainda hoje, na memória dos mais idosos está ainda a forma como as pessoas se abrigavam da chuva, refugiando-se dentro dos troncos ocos dos castanheiros mais velhos. Também havia quem tentasse em jeito de brincadeira o desafio de saber quantas pessoas conseguiriam abraçar um castanheiro, ao fim e ao cabo uma forma involuntária de silvoterapia.

No Europa, o Castanea sativa distribuiu-se pela zona Ocidental do continente, assum como na bacia mediterrânica, nas zonas mais temperadas, sendo uma árvore importante para a economia de alguns países. Em Itália por exemplo, há uma associação nacional que defende e promove o cultivo de castanheiro e na comuna de Sant’Alfio, na Sicília, encontra-se aquele que será o maior e mais antigo castanheiro do Mundo e, ao mesmo tempo, a maior e mais idosa árvore da Europa: o castanheiro dos 100 cavalos (Il Castagno dei Cento Cavalli). 

Esta árvore tem uma idade estimada 3600 e 4000 anos, de acordo com a informação disponível no site institucional. O Livro de Recordes do Guiness refere-a como a árvore com maior circunferência de tronco registada, com 60m de diâmetro no tronco de acordo com a medida registada no século XVIII. Actualmente está dividida em vários troncos mais estreitos, após um incêndio ocorrido em 1923 e ateado pela população local, em protestos contra uma medida de reordenamento territorial administrativo.


O castanheiro dos 100 cavalos representado por Jean-Pierre Houel, na sua obra "Voyage pittoresque des illes de Sicile, de Malte et de Lipari, 1782. Foto: Wikipédia

O seu nome deve-se, segundo uma lenda local, ao facto de a rainha de Nápoles, Joana de Aragão, no regresso de uma expedição ao Etna, ter sido surpreendida por uma violenta tempestade que a obrigou e à sua comitiva de 100 cavaleiros a procurar refúgio dentro do castanheiro. Hoje a árvore é uma das grandes atracções turísticas da região, tendo a sua importância enquanto monumento natural de grande valor simbólico sido reconhecida pela UNESCO em 2006.


O Castanheiro dos 100 cavalos na actualidade. Foto tirada daqui

Vale a pena ler: dois milhões para reabilitar zona envolvente do Castanheiro dos 100 cavalos

(*) o moio era uma medida que tanto podia ser de volume como de peso. Pela zona NO da Gardunha, equivalia a 60 alqueires, sendo que a medida do alqueire, variava de região para região, podendo representar o equivalente a entre 11 a 15kg de peso.

quarta-feira, março 07, 2018

As Secadeiras da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 1 de Março de 2018.(ver aqui

Secadeira do Carvalhal, Souto da Casa


As secadeiras são uma das construções mais tradicionais da Serra da Gardunha, e foram em tempos uma engrenagem fundamental num dos aspectos económicos mais importantes da região: a produção de castanha. Funcionaram de forma intensiva até há cerca de 30 anos, altura em que os incêndios, as pragas e o corte abusivo enfraqueceram irremediavelmente os soutos. 

Várias fontes atribuem aos romanos a responsabilidade pela introdução do castanheiro na Península Ibérica mas, na verdade, o registo fóssil prova que o Castanea sativa já existia pelo menos no Noroeste peninsular há cerca de 7.000 anos. Na Gardunha, reza a tradição que os castanheiros terão sido plantados por ordem de D. Dinis, em finais do séc. XIII, sendo que os soutos, com uma extensão de cerca de 14km, depressa assumiram um papel vital para as comunidades da Gardunha. 

É fácil perceber a importância que o castanheiro terá tido na subsistência destas comunidades, à semelhança do que acontecia nas geografias onde abundava. Para além da tão apreciada e muito nutritiva castanha, que lhe granjeou o epíteto de “árvore do pão”, o castanheiro fornecia também lenha para cozinhar e para aquecimento, madeira para construção de habitações e do seu mobiliário, matéria para fertilizar os solos, material para cestaria, alfaias agrícolas e até cajados de pastores. 

Os soutos, inicialmente pertença do rei, acabaram nas mãos de grandes proprietários que daí obtinham uma parte significativa dos seus rendimentos. A tarefa da recolha da castanha, na ordem das centenas de toneladas, cabia à população assalariada que, em seguida, levava o fruto para as secadeiras onde eram colocadas a secar. Depois de seca, grande parte da produção ficava na posse do proprietário, cabendo apenas uma pequena fracção àqueles que tinham recolhido o fruto, inicialmente um sexto ou um quinto

 As secadeiras eram construções em granito ou xisto, com telhado a uma ou duas águas, consoante a sua dimensão e organização. Possuíam dois pisos e tinham em geral apenas duas aberturas: uma porta e uma janela. Adossado às secadeiras ou nas imediações destas, era comum existir um espaço de armazenamento. Separando os dois pisos encontrava-se o “caniço”, sobre o qual eram despejadas as castanhas destinadas à secagem. Tratava-se de uma estrutura em madeira, constituída por pequenas tábuas ou “ripas”, suportadas por vigas transversais. As ripas eram espaçadas entre si o suficiente para, por um lado, não deixar cair as castanhas e, por outro lado, para permitir a passagem do calor proveniente das fogueiras do piso inferior. 

 O processo de secagem demorava de duas a três semanas, sendo realizado pelo efeito do calor de fogueiras brandas, sempre com recurso a lenha de castanheiro cujo fumo, dizem, “dava às castanhas um aroma e um paladar mais adocicado”. As fogueiras eram mantidas pela vigília constante daqueles que tinham as suas castanhas na secadeira nessa altura. Já secas, as castanhas eram depois descascadas, sendo para isso colocadas em cestos próprios onde eram pisadas fosse com tamancos de madeira ou, mais recentemente, com recurso a botas cardadas. As castanhas secas, ditas “castanhas piladas”, eram depois triadas para separar as de melhor qualidade para venda. As de menor calibre ou partidas destinavam-se ao sustento da população podendo ser cozidas ou usadas no tradicional “caldudo”. 


Distribuição das secadeiras inventariadas na Gardunha. Para referência, a Penha situa-se no canto superior direito da imagem. Fonte: Google Maps


Recentemente, dedicámo-nos a fazer o seu inventário na freguesia do Souto da Casa, tendo registado sete secadeiras. Haveria certamente mais ao redor da Gardunha. Das que constam deste inventário, a mais bem conservada é a Secadeira do Carvalhal, que em boa hora foi restaurada pela Junta de Freguesia do Souto da Casa. As restantes encontram-se todas em ruínas.

sexta-feira, março 02, 2018

A cintura fortificada de Liège - O forte de Embourg



De forma depreciativa, pelo passado bélico de séculos do seu actual território, costumava-se dizer que a Bélgica era o "Boulevard Paris-Berlim". De facto, pelas suas características, o território belga sempre foi visto como a via ideal para qualquer ofensiva francesa contra a Alemanha ou vice-versa. Após a guerra franco-prussiana de 1870-71, as autoridades belgas decidiram contrariar esta tendência e reforçar defensivamente a região ao redor de duas cidades de grande importância estratégica, Namur e Liège, com a construção de cinturas de fortes ao seu redor.

Entre 1888 e 1892, foram construídos nada mais nada menos que 12 fortes ao redor de Liège, visando trancar a região a futuras invasões. Na cidade propriamente dita, foi construído um forte imponente, a Cidadela, sendo complementado com outro forte na margem direita do Mosa: o forte de Chartreuse.

Infelizmente, como a História nos ensinou, o nível tecnológico dos fortes desta região sempre chegou com uma guerra de atraso e, quando se deu a Batalha de Liège na abertura da ofensiva ocidental alemã em Agosto de 1914, as estruturas de betão simples (não armado) não conseguiram resistir à artilharia pesada germânica. Alguns fortes foram pura e simplesmente apagados da paisagem pela artilharia, sepultando as tropas que os guarneciam.

Ainda assim, a resistência de Liège durou 12 dias, muito acima do esperado pelos alemães, que contavam com uma rápida vitória no sector, garantindo um tempo precioso para que os franceses preparassem a sua defesa. O reconhecimento deste feito mereceu a condecoração de Liège com a Legião de Honra francesa.

Antes da Segunda Guerra Mundial, alguns fortes foram reconfigurados e reapetrechados e a região militar foi reforçada com 4 novos fortes. Apesar de tudo, mais uma vez, pouca resistência conseguiram oferecer à "Wermacht".

Embora os fortes apresentem hoje estados de conservação e utilização bem diferentes, decidi percorrê-los a todos, começando arbitrariamente pelo Forte de Embourg. Os restantes serão percorridos ao longo do ano.


O Forte de Embourg

A cintura fortificada de Liège. O forte de Embourg está assinalado a azul.


O Forte de Embourg visava fechar o vale do Ourthe, no sector Sul / Sudeste. Actualmente é mantido por uma associação sem fins lucrativos que realiza visitas guiadas ao seu interior, onde aliás foi implementado um museu reputado de muito interessante.



Acesso ao forte de Embourg, com alguns vestígios de defesa passiva anti-tanque


"Blockhaus" de protecção da entrada, com abertura de tiro de canhão ou metralhadora e abertura para largada de granadas (à direita)

Infelizmente, no dia da nossa visita e ao contrário do anunciado, o forte manteve-se fechado pelo que tivemos de nos contentar com uma pequena visita à parte superior das fortificações. Felizmente, nem tudo foi mau e encontrámos à porta uma habitante local, a senhora Vin Coenen, muito envolvida na gestão do forte,  que aceitou acompanhar-nos e falar um pouco sobre Embourg.

Com Vin Coenen na entrada do forte.


O ataque alemão de 1914

Os fortes de Liège e as tropas de intervalo ofereceram uma feroz resistência ao ataque alemão de 6 de Agosto de 1914, ocorrido apesar de a Bélgica ter declarado a sua neutralidade no conflito. Perante a inesperada resistência belga, os alemães foram forçados a duplicar os efectivos envolvidos no ataque e a utilisar os seus famosos canhões "Grande Bertha", com um calibre de 420mm. Ora os fortes, como disse, tinham várias limitações, entre elas, a mais grave, o facto de terem sido construídos em betão não armado, permitindo-lhes resistir ao impacto de obuses com um calibre máximo de 210mm. Escusado será dizer que o efeito do bombardeamento contínuo foi devastador. Por outro lado, os canhões dos fortes utilisavam pólvora negra, que produzia um fumo asfixiante. Após várias horas a disparar, o ar no interior dos fortes tornava-se irrespirável.

O forte de Embourg foi bombardeado sem parar durante mais de 24h, entre 12 e 13 de Agosto, acabando por se render.

A germanofobia do pós-guerra e a heróica resistência de Liège foram bem evidenciadas pelos franceses. Assim, o café dito "Viennois" foi rebaptizado de "café Liègois", para evitar referências à capital austríaca e, por outro lado, a rua e a estação de Berlim, em Paris, foram rebaptizadas de rua e estação de Liège, respectivamente e a raça canina pastor-alemão passou a ser conhecida por pastor-belga. Finalmente, à cidade de Liège foi atribuída a Legião de Honra francesa.


O ataque alemão de 1940

O forte foi o primeiro forte de Liège a entrar em contacto com as tropas alemãs, no início da batalha da Bélgica. O forte tinha dois grupos de soldados em rotação. Vin conta-nos que o seu pai estava no destacamento em repouso na aldeia ali ao lado e que, quando chegaram as notícias do ataque, recebeu ordem para retirar para uma linha defensiva longe do forte. Este ultimo acabaria por se render 5 dias mais tarde, sem possibilidades de resistir ou receber apoio. O pai de Vin acabaria mais tarde por ser capturado em França e passou vários meses como prisioneiro de Guerra na Alemanha antes de voltar a casa.

Quanto ao forte, ocupado agora pelos alemães, foi alvo de várias obras de melhoramento para o tornar mais resistente e eficaz. O que hoje se vê é o resultado desses melhoramentos.


O acesso de infantaria no maciço central superior do forte

Posição de tiro de infantaria na parte superior do forte

Espaço anteriormente ocupado por uma cúpula de artilharia


Vista do fosso e, à direita, do maciço central do forte

Uma ligação a Portugal

Ao saber que somos portugueses, Vin exclama -"Tenho excelentes recordações dos portugueses!" e conta-nos porquê. Após o regresso do pai, acabaram por deixar a Bélgica rumo ao Congo Belga (actual R.D. do Congo) onde ficaram até ao fim do conflito, após o que decidiram regressar à Bélgica. O meio de transporte escolhido foi o barco que, por proximidade e por conselho de vários amigos, decidiram ir apanhar em Luanda, o que implicava uma viagem de carro pelo interior africano. 

Ora acontece que na fronteira os amigos que os acompanhavam foram impedidos de prosseguir, obrigando a família de Vin a continuar sozinha. A dada altura perderam-se e, chegados a uma localidade cujo nome se perdeu da memória, foram acolhidos por um casal de portugueses que os convidou a jantar e pernoitar em sua casa.

Na altura com 6 anos, Vin já não se recorda qual foi a ementa do jantar. Lembra-se apenas da sobremesa: leite creme com canela. -"Os portugueses põem canela em tudo, não é? Estava tão bom, tão bom...!".

Com as indicações certas, seguiram viagem no dia seguinte e finalmente regressaram a Liège. O pai de Vin foi reincorporado no exército e destacado para Aachen, no sector inglês da Alemanha ocupada. Do que viveu ficaram-lhe poucas memórias mas bem vivas: a cidade em ruínas e a vida que levavam no quartel. "A cidade estava toda destruída. Era horrível. Mas nós, lá no quartel vivíamos bem. Tínhamos escolas, cinema, piscina,... Eram mundos diferentes."

Despedimo-nos, com alguma frustração por não podermos visitar o interior do forte mas, ficou desde logo combinado que voltaríamos quando este estivesse aberto em permanência. Ficou muito por conhecer sobre o forte de Embourg.

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Serra da Gardunha - Um território de passagem

Nota - Este artigo serviu de base à crónica recentemente publicada no Jornal do Fundão. Apresenta-se aqui numa versão mais extensa e próxima da sua versão original.




A Serra da Gardunha contém muito mais que apenas a paisagem natural. Possui muitos outros rostos, outras materialidades que estão na base da nossa identidade cultural. Apesar de hoje a escala humana escapar à nossa percepção, a Gardunha sempre foi ao longo da História um território de intensa vivência e também de comunicação entre as comunidades das suas vertentes. Esta sua dimensão cultural humana entra nos domínios da história e da etnografia, aspectos que se refletem num rico manancial de património material e imaterial que hoje podemos encontrar ao seu redor. 

A existência de diferentes comunidades no perímetro da Gardunha, com a consequente necessidade de comunicação entre elas, e o próprio carácter de fronteira da Serra, sendo um lugar de passagem por exemplo dos caminhos da transumância, pressupunha a existência de uma rede de vias de trânsito que permitia atravessar a serra ou simplesmente servir de via de comunicação entre comunidades da própria serra. 

Se dos caminhos secundários hoje pouco resta a não ser a memória imprecisa da sua existência, quanto às vias principais o cenário é substancialmente diferente. Quem não conhece hoje a estrada romana que liga Alcongosta a Alpedrinha, com o seu sinuoso lajeado, ou a continuação desta de Alpedrinha para Castelo Novo? Trata-se de uma via notável que merece claramente ser preservada e valorizada, embora suceda precisamente o contrário já que sobre ela continuam a passar veículos motorizados, com consequências bem visíveis no seu estado de conservação e, não bastando isso, ainda no ano passado no segmento Alpedrinha-Castelo Novo foi realizada uma intervenção para benefício privado que a danificou seriamente.

Para além de outros troços de calçada antiga existentes ao redor de São Vicente da Beira e do Alcaide, outra via dita romana que é bem conhecida é a calçada que liga o santuário da Senhora da Orada, em São Vicente da Beira, até à portela denominada como “Cruz”, no limite entre esta freguesia e a do Souto da Casa. Também esta via foi alvo há alguns anos de uma intervenção de preservação muito sui generis que a escondeu dos olhares e hoje, em consequência do esquecimento a que foi votada, está já seriamente danificada em alguns locais. Esta calçada ainda assim era apenas uma parte de uma via que ligava São Vicente da Beira ao Souto da Casa, e que entre esta última localidade e a aldeia de Casal de Álvaro Pires evidencia ainda alguns segmentos de pavimento em zonas de maior inclinação, uma prática normal que se destinava a garantir que os veículos puxados por animais aí conseguissem ter tracção.

Para além da sua função de ligação entre comunidades no domínio mais terreno, algumas destas vias tinha também uma função de ligação ao sagrado, tornando-se caminhos de romaria ou peregrinação mais ou menos sazonais. Neste contexto em particular, a cartografia da antiga rede viária da Gardunha teve no ano passado uma importante contribuição por parte dos Caminheiros da Gardunha que, em conjunto com o Museu do Fundão e contando ainda com a preciosa colaboração de Mário Castro no que à interpretação e ao levantamento cartográfico diz respeito, identificaram no terreno e na quase totalidade da sua extensão, a via que ligava Castelo Novo ao antigo santuário de Nossa Senhora da Serra na Penha da Gardunha. O resultado deste trabalho foi dado a conhecer nas I Jornadas de Arqueologia e Património da Serra da Gardunha realizadas em Abril de 2017 no Fundão.


Vista SO do fraguedo da Penha, já no topo da escadaria

A fundação do santuário de Nossa Senhora da Penha, justificada por um milagre, remontará provavelmente a tempos medievais, acabando mais tarde por ser desmantelado por ordem bispal, possivelmente algures no início do século XVIII, na sequência de uma existência algo turbulenta. Durante este período, foi um importante local de romagem das comunidades ao redor da Gardunha, que para aí convergiam logo a seguir à Páscoa, embora em dias diferentes para evitar refregas decorrentes de rivalidades, como nos conta José Inácio Cardoso na sua Orologia da Gardunha. Esta tradição sobrevive actualmente em Castelo Novo, com a festa em honra de Nossa Senhora da Serra na Segunda-feira de Pascoela. Voltando à romaria anual à Penha pela vertente de Castelo Novo, para além de algumas descrições historiográficas, havia muitas dúvidas sobre qual o caminho que os romeiros seguiam para aí chegarem, dúvidas essas que agora parecem estar dissipadas com a identificação da via.



A escadaria da Penha

Esta, cuja passagem pelo sítio do Sameiro já tinha sido referenciada pelo Museu embora sem precisar a sua real extensão, parece ter servido também para transporte de carga entre a aldeia histórica e o casario mais ou menos disperso que existia no local conhecido como Barrocas do Mercado, como o demonstram as marcas de rodados que ficaram bem vincadas em algumas lajes pelo seu uso continuado. Desta derivava, a dada altura, um caminho que ascendia à Penha, num ziguezague de degraus e plataformas sucessivos ao longo de 350m, com alguns segmentos eventualmente pouco recomendáveis a quem sofre de vertigens. Dos acessos de quem vinha do Souto da Casa e Alcongosta conhecem-se hoje apenas alguns vestígios e há ainda muitas interrogações no ar.

Ora, acontece que a nefasta passagem do fogo pela Gardunha, não deixando de ser uma tragédia, deixou à vista muitos elementos de património que até agora estavam escondidos, inclusive alguns troços viários antigos que nos ajudam a ter uma ideia mais abrangente da rede de caminhos que percorriam a serra. Várias publicações na rede social da moda, o Facebook, deram conta do surgimento destes troços de calçada entre Louriçal do Campo e Alpedrinha, passando por Castelo Novo. Estamos, sem dúvida, perante uma oportunidade de ouro para proceder à identificação e inventariação desta rede de caminhos antigos. As vantagens que poderiam advir desta intervenção são por demais evidentes.


Troço da calçada Alcongosta-Alpedrinha que estava escondido e que o incêndio deixou à vista


Numa lógica de criação de valor turístico da Serra da Gardunha e com base nos inúmeros elementos patrimoniais atrás referidos, é hoje perfeitamente possível - e faz todo o sentido- criar itinerários pedestres permanentes com um fundo cultural, com uma temática que abranja tanto o património material como o imaterial, e cujo interesse consiga ir muito para além da paisagem natural. A rede viária antiga tem aqui também um papel importante na medida em que traria valor acrescentado a estes percursos. Para além deste factor de valor acrescentado, a sua integração na rede de percursos pedestres acabaria por ser também um importante factor de preservação, na medida em que contribuiria para os manter transitáveis.

Um bom exemplo de uma iniciativa nesse sentido é projecto “Gardunha Sacra”, um projecto que começou há 4 anos resultante de uma parceria entre o Município do Fundão, os Caminheiros da Gardunha e o GEGA, contando também circunstancialmente com o contributo de várias colectividades e instituições do perímetro da Gardunha, e que procurou definir um percurso ao redor da serra ligando os lugares sagrados de certa forma esquecidos através da rede de caminhos antigos. Esta iniciativa termina a sua primeira fase no próximo mês de Março, numa caminhada que vai ligar Alcongosta ao Fundão, avançando depois para o patamar seguinte em que se vai trabalhar no sentido de tornar o percurso permanente, associando-lhe não só publicações de suporte e divulgação como ainda meios para tornar possível que todo o percurso possa ser feito de forma autónoma sem perder o seu cunho pedagógico.

Adicionalmente, agora que a real extensão desta rede viária começa aos poucos a ser conhecida, muitos dos actuais percursos pedestres homologados poderiam e deveriam ser desviados quando possível para as vias antigas, retirando-as dos “estradões” contemporâneos nas quais foram sinalizadas. Enquadram-se perfeitamente neste contexto por exemplo a Rota da Penha, a Rota de Alpreade e até o troço do Caminho de Santiago que, apesar de ser considerado um caminho cultural histórico, atravessa a Gardunha por intermédio de um moderno, exigente e descontextualizado estradão. Seria sem dúvida mais interessante se o fizesse por calçadas antigas, seguindo certamente desta forma mais fielmente os passos dos antigos peregrinos.

Valorizar os elementos patrimoniais materiais existentes ao longo do percurso seria também uma possibilidade, destacando-os e disponibilizando informação sobre eles. Tomando como exemplo a via romana entre Alcongosta e Alpedrinha, com pouco esforço se poderia dar destaque às interessantes lagaretas escavadas na rocha existentes junto à portela ou colocar em evidência as marcas de trabalho existentes nas rochas ao longo da via, marcas essas que nos dão pistas sobre onde e como foram obtidas as lajes com que foram feitos a calçada e respectivos muros de suporte.



Marcas de trabalho de extracção de pedra certamente para abertura de passagem e pavimentação da via.




Uma das lagaretas situadas junto à via Alcongosta-Alpedrinha


As soluções para pôr tudo isto em prática existem e não é preciso inventar nada. Basta saber seguir os bons exemplos. Depois, é só uma questão de sabermos capitalizar aquilo que é o factor crucial de diferenciação, que é a conjugação do nosso património natural com o património cultural material e imaterial. A receita é bem simples: basta saber valorizar o que é nosso e que define, ao fim e ao cabo, a nossa identidade enquanto filhos da Serra da Gardunha.


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